1 de out de 2008

Feitiço e magia no jornalismo pela sustentabilidade

Jornalistas debatendo responsabilidade social empresarial na mídia. O tema me pareceu instigante. O fato de os debatedores do Seminário serem os vencedores do 8° Prêmio Ethos de Jornalismo também chamou minha atenção. Saí do Seminário, realizado ontem (30/9), em São Paulo, com vários questionamentos, algumas certezas e muita vontade de escrever cada vez mais.

São muitos os desafios dos jornalistas que trabalham com o tema da sustentabilidade. E, aqueles que estão distantes da temática, têm mais obstáculos ainda. A dúvida é, porque se distanciar de algo que se mostra tão importante?

Alguns, nitidamente, não se interessarem pela sustentabilidade, outros trabalham em veículos de comunicação que ainda não atentaram para a relevância sistêmica dela. Há, ainda, aqueles que mergulharam, mas não passaram da superfície do assunto e permanecem sem os ‘equipamentos de mergulho’ que os levariam a conhecer a fundo a complexidade do tema.

Essas constatações não são novas para os profissionais que vêm prestando atenção nas notícias divulgadas na mídia em geral e nas especializadas. De uns três ou quatro anos pra cá aumentou a quantidade de notícias divulgadas sobre sustentabilidade. Aumentaram, também, os veículos especializados no tema. Mas, até que ponto essas notícias se esgotam e tocam a fundo a questão? Como diferenciar o que é uma boa pauta, que certamente gerará uma matéria embasada, de outras que alguns costumam chamar de lixo travestido de jornalismo?

Sabe-se que depois de uma boa matéria publicada o tema pode perder-se e que o veículo pode deixar de dar continuidade ao caso se aparecer algo mais novo, chamativo e que gere mais audiência. Nesse sentido, como fica a sociedade, carente de seqüência e embasamento sobre os fatos?

Os vencedores do Prêmio Ethos de Jornalismo 2008 participaram do Seminário, realizado ontem, contaram sobre suas experiências e puderam debater a responsabilidade social empresarial na mídia. Clique aqui e confira os vencedores do Prêmio.

Para André Trigueiro, vencedor da categoria Televisão, com matérias publicadas na Globo News, a mídia é refém do factual. “Nós, jornalistas, temos a pretensão de informar em primeiro lugar. É como se estivesse embutido no jornalista a vontade de ‘formar’, apesar de não sermos educadores”. Ao mesmo tempo, paira na profissão a dificuldade de dar continuidade e gancho para outras matérias, já que ficamos presos no factual. É como se a contextualização e a continuação dos fatos caíssem, perdessem a importância em meio a outros temas mais instigantes.

“Na área ambiental e, quando tratamos de sustentabilidade, a informação tem que promover a mudança de atitude, tem que envolver e fisgar o leitor/expectador. Para os jornalistas, não basta saber seguir as regras, tem que ser feiticeiro”, afirma André Trigueiro.

Será que é aí que está o caminho do meio? Talvez questões como a sustentabilidade necessitem de pessoas mais sensíveis a ponto de conseguirem emplacar pautas em veículos que outrora não atentavam para nada que não fosse o que gera audiência. Será que é na feitiçaria – no bom sentido – que o jornalista André Trigueiro se apóia para conseguir criar pautas sustentáveis e veicula-las em grandes mídias?

Embolorados

Para Trigueiro, “há certo ‘bolor’, um cheiro de naftalina na academia, que dificulta a formação de profissionais preparados para tratarem de questões complexas como a sustentabilidade”. Para ele, “ser jornalista especializado em meio ambiente e sustentabilidade, no Brasil, é uma singularidade devido aos recursos que temos”. Há um senso de urgência na mudança, mas estamos, conforme afirma Trigueiro, em um período de decantação do novo. Há sim, e temos que ressaltar, “uma mudança em curso, mesmo que lenta, já que não se muda a cultura de uma hora pra outra”, afirma o jornalista.

“A idade da pedra não acabou por falta de pedra, assim como a era do petróleo não vai ter fim apenas pela falta desse recurso. É preciso enxergar que a dimensão da sustentabilidade começa dentro de cada um, não é apenas uma questão ambiental. O grande desafio é se dar conta de que o risco mensurável é real e que não mudar é um problema ético”, afirma o jornalista.

Para Adalberto Marcondes, da Revista Digital Envolverde, prêmio destaque da Rede Ethos de Jornalistas, o jornalismo está em um momento mágico. “Nunca tivemos tantas formas de informar ao mesmo tempo e a sociedade nunca teve tantos meios de obter informações”. O fato de a internet ser um veículo multifacetado faz com que, cada vez mais, os jornalistas tenham que se transformar em fontes confiáveis de informação. “Um exemplo disso é o fato de haver hoje algo em torno de 130 milhões de blogs no mundo e os mais lidos são os de jornalistas, que garantem a qualidade e a credibilidade da informação publicada. É a ‘garantia’ de um compromisso por parte do comunicador”.

Para Marcondes, o profissional de comunicação precisa se qualificar ainda mais rápido do que outros para garantir que será fonte de informação.

Como notamos, Trigueiro e Marcondes utilizaram-se de termos ímpares para definir essa possível nova era da comunicação. Um falou em feitiço e outro em magia. Ambos conseguem ser exemplos de jornalismo com foco na sustentabilidade. Ambos conseguem atrair público, cada qual com suas características. Fica a dica dos profissionais, sem ainda uma receita de bolo, já que com ela o jornalismo acabará caindo na mesmice.

Naná Prado e jornalista, gestora ambiental e aspirante à professora de Yoga. É editora-chefe do Mercado Ético. Já trabalhou com Assessoria Estratégica em Meio Ambiente, com responsabilidade social empresarial, com organização de Congressos e redação de Relatórios de Sustentabilidade.

Fonte: Mercado Ético